KOBOI um filme de FABIOLAMORAIS
por erica gonsales
Vc diz no blog que o filme é resultado de mais de 10 anos de trabalho e pesquisa inspirados em Koboi. O que te fez se envolver tanto com este tema?
Eu acho que o conceito de nuvem da internet é a melhor metáfora para eu explicar como acredito que a arte acontece. Temos conhecimento sendo acumulado por gerações de pessoas, e de vez em quando esse conteúdo “descarrega” através do trabalho de uma delas. Esse alguém, no caso da obra de arte, o artista (pintor, roteirista, diretor, etc) tem de estar técnica e tecnologicamente pronto mais para não atrapalhar com qualquer inabilidade aquilo que ele é responsável por materializar. Eu penso assim e entendo que é o que o Michelângelo também pensava quando dizia que a escultura já estava na pedra a espera daquele que viesse apenas tirar as sobras.
O tema de koboi é mítico, ou seja, fora de nossa escala convencional de tempo, acima dela. Acho portanto natural que demorasse tanto e acumulasse a simpatia e contribuição de tantas pessoas.
Enquanto ele amadurecia, trabalhei normalmente em vários outros projetos, mas koboi sempre dava um sinal de vida em forma de toys, pequenos vídeos, desenhos e fotografias. Todo esse material foi revisto e parte dele utilizado. Cada coisa já tinha o seu lugar embora não houvesse essa consciência quando foram produzidas.
O mito é representado no filme sob o aspecto do choque de culturas, a tradição indígena e a civilização. No entanto o mito é também uma clara alusão à própria vida, de como saímos do útero materno (escuro, úmido e seguro), para nos aventurarmos pela vida (que traz a dor a tristeza, a preguiça e a morte) e então já não podemos voltar. Ou seja, o seu filme diz, de certa forma, que a evolução humana, o crescimento urbano (e pq não, tecnológico) é inevitável como a própria vida?
O choque é daquilo que a cidade pretende ser através de seus monumentos e arquitetura e o que ela realmente é.
O local do filme é Goiânia que tem seu patrimônio artdéco tombado pelo IPHAN e pixado. É onde também se vê nas pessoas que transitam pela “Praça do Bandeirantes” fisionomias que evocam uma mistura de índios.
O mito é sobretudo uma alusão à vida, que é expressa em incontáveis outros mitos de origem de povos de todo o mundo: trocamos o seguro pela experiência. Essa é a lógica, inclusive porque seguro não é necessariamente bom e a partir desse desconforto traçamos um movimento irresistível em direção ao desconhecido em busca de que em algum momento cesse a própria necessidade de buscar.
Numa realidade em que o cosmos se expande em uma velocidade que não conseguimos sequer nos dar conta (apesar de estarmos nos movendo nela) ficar parado é muito mais perigoso do que explorar. Viver é esse risco que ninguém está apto a calcular.
Mas também falo de outra coisa: o ritual de destruição e renascimento. Quando os kobois dançam e a cidade cai, imediatamente novas formas de vida surgem no meio dos escombros. Isso tras de volta a idéia do ciclo que esquecemos justamente porque a cidade impermeabilizada, além de expulsar todas as outras formas de vida que não a humana “civilizada”, nos separou do ritmo natural das coisas ditado pelo nascimento, morte, renascimento, morte denovo e infinitamente.
Como seria realizar/expressar o que vc queria dizer com Koboi sem ter disponíveis as ferramentas e recursos tecnológicos que vc utilizou?
A disseminação da tecnologia, tanto em termos de equipamentos e softwares quanto em relação à distribuição do conteúdo, tem realizado um milagre na face do planeta derrubando um paradigma depois do outro. A primeira vez que orcei koboi, eu precisaria de no mínimo R$ 300 mil reais para contar essa mesma história, que agora custou dez vezes menos. Os recursos tecnológicos, em suma, estão trazendo mais gente pra fazer e muito mais gente para assistir e isso é um boom.
Outra coisa é a enxurrada de influências sem território e sem autoria determinada da era vímeo e youtube. Esse primeiro orçamento era em animação quadro a quadro e o filme acabou tendo muito menos de animação dito de uma forma clássica. O personagem caminha por cenários montados a partir do recorte, sobreposição e mixagem de imagens, minhas e de alguns outros fotógrafos que cederam as fotos e vídeos. Assim também foi com boa parte da trilha que contém várias citações, de mantra indiano e hino da floresta brasileira a pererecas da mata atlântica.
O próprio conteúdo das imagens de apoio mixa a história: imagens da jamaicanas, índios da amazônia, rio araguaia, goiânia, brasília e chapada dos veadeiros formam a paisagem.
Esse “trânsito” e “colagem” de informações é o paradigma da web, mas o filme também será visto no cinema e que sabe TV, contudo não dependerá exclusivamente desse espaço que as salas de exibição do Brasil dão para filmes nacionais de curta metragem porque é proporcionalmente nenhum.
nós somo diferente nenhum
nos somo fio da terra do primeiro habitante como aukê e como o jesuis
tema esse que eu repassa, não esquece esse pouco da minha conversa porquê
o português que eu comecei de aprender e um pouco a falá o que eu
entende eu to é gaguejando mas as pessoas que já ta sabendo, o indioma
do português e outro, indioma do kaiwá e oturo, indioma do macuxi é outro,
indioma do walapiti é outro, indioma da …mãe da lua e outro
todos nós somos só por causa do indioma que e diferente nos não é
diferente, nos somo ingual o nosso a cara nosso narizo nao tem
diferença
nosso calcanhá é pa tras e nossa língua é pa frente num é pa tras
então nos somo tudo ingual
um sangue é um sangue só
um corpo é o ser humano
todos nós temos nosso indioma
cada nós temo indioma e nosso religião cada um nós temo um religião
abertamente eu quero esclarecê na presençaa de todo mundo
vamo como que nos começou de ajuntamos o maracá o pajé tem um maraca certo?
todos povo tem um maracá
porquê que nós tamo no pé de maracá?
e o pé de mundo que nós tamo numa alturis de internet, que nós tamo
num alturis, no coroa do mundo que nós tamo
o português que invadiu com nossa terra toda
certo?
falta respeito de nossa voz
eu não vou dizer que
nessa terra
eu to dentro da minha terra certo?
o governo chegou do português que chegou…pedro alvares cabral chegou
com essa terra?
veio lá dos estados unidos trouxe essa terra pra cá?
num trouxeram
cada nossa terra é separado
como o português não tem respeito, estatuto, eu vou jogar em cima do
povo do sino, certo?
todo mundo são sabedô, todo mundo são conhecedô, todo mundo tem ôio
só que aprendizado que o português começou tomá de conta de tudo
porque o português tem o preparo
tem a bomba atômic, tem o fusil, tem metralhadoris tem tudo na mão
enton
que que o governo brasileiro toma de conta?
é um português que ta aqui
desculpa a minha conversa!
getúlio kraö | fala no ” encontro das culturas tradicionais do cerrado ” chapada dos veadeiros_goiás| 2010
câmera e transcrição: fabíolamorais
assista ao vídeo: http://vimeo.com/15189809