vou contar uma história que foi sonhada por mim ao longo de um ano, unicamente nos momentos em que eu estava “acordada” . e tudo foi assim … :
cheguei na casa de um senhor, de aparência muita mais velha do que de fato o era. Ali já havia um grupo de pessoas que se acomodavam enquanto outros prestavam atenção na sua figura. O homem, sentado numa cadeira especial, estava de olhos bem fechados, no canto mais importante da sala. Assim ele ficou até que todos chegassem ao silêncio.
Quando abriu os olhos, os dele encontraram os meus pois tomei o cuidado inconsciente de me sentar diretamente na sua frente.
A partir daquele momento , suas palavras , a medida que me alcançavam, foram arrancando de mim, com suavidade, um sentimento de gratidão, pura e simplesmente assim.
Chorei até meus olhos também brilharem e estabeleci de imediato com o velho, um vínculo de confiança que até então não havia experienciado, embora tudo aquilo me soasse antigo.
Essa gratidão e confiança eram de uma qualidade que eu não tinha tido com nenhum de meus próximos: nem com meus pais, nem com meus irmãos, nem com meus amigos e minhas amigas, nem com meus amantes e minhas amantes.
No outro dia quiz voltar e me sentei de olhos fechados em frente a ele que já estava lá de olhos também assim. Experimentei a curiosa sensação de enxergar muito mais longe e muito mais claro, muito mais perto e muito mais claro, ver também o nada, e isso pela primeira vez.
Depois de um tempo frequentando a casa, junto com pessoas que eu não conhecia, cheguei uma manhã e as coisas estavam bem diferentes. No lugar da sala havia um grande acampamento, com muitas barracas e ele me aguardando em frente a uma delas com uma marreta de cabeça de ferro e cabo de madeira que atingia o tamanho de um metro. Era pesada mas exatamente dentro do limite da minha força.
Sem falar me explicou que por uns tempos aquela barraca seria minha e que aquela ferramenta deveria ser usada para derrubar minha antiga casa que, apesar de serem muitas e estarem construidas em outro país, encontrava-se ali naquele momento como única e há poucos metros de minha tenda. Com excitação e energia fui lá e iniciei o trabalho.
Assim foi por vários dias seguidos, não sabendo mais contar quantos, A medida que avançava, sentia-me mais apta pois pude aperfeiçoar a técnica da marreta. Aprendi, por exemplo, a quase soltar seu cabo quando a cabeça já estava lançada ao ar e depois apanhá-lo com força apenas no momento descendente do golpe. E também como nunca fazer coincidir a puxada de ar para os pulmões com o momento de maior força. Aprendi a gritar para aumentar minha energia, conviver com as contusões e também por onde começar em cada nova parede, atacando primeiro seus pontos mais sensíveis marcados por rachaduras, para enfim chegar nos extremamente duros, que a essa altura já estariam abalados.
Todas as noites, pouco depois de chegar muito suja e exausta na barraca, o velho me trazia chá num copo e sopa de lentilhas em um prato de inox. Assim que comia e terminava o chá, eu caia em um sono sem sonhos até a manhã seguinte quando acordava limpa, com roupas novas e a disposição renovada. Era nessa hora, com o sol nascendo, que, espreguiçando o corpo, eu tinha a oprtunidade de trocar idéia com meus companheiros de acampamento.
Nessas breves conversas sem palavras , soube que era normal o fato de determinadas paredes, que tinham me ocupado dias de trabalho, reaparecerem reconstruidas e intactas. Me disseram os mais experientes que em tal caso era melhor trocar a obstinação nascida do frustrante trabalho em vão, por outro plano que derrubasse outras paredes até o momento propício de voltar àquelas resistentes.
Numa certa manhã, quando meu trabalho já estava avançado e eu começava a derrubar um cômodo mais antigo e interno, ouvi alguém chorando. Parei as pancadas e pus me a escutar com mais atenção. O choro, agora mais alto e desesperado vinha de onde eu estava derrubando. De súbito reconheci aquela voz e meu coração gelou. Larguei a marreta e corri até o acampamento onde o velho já me esperava. Aos gritos eu disse que não poderia mais continuar com aquilo porque minha mãe estava lá e minhas pancadas a estavam colocando em sério perigo. Contei de seu choro triste e pedi sua ajuda para reconstruir tudo.
Pela primeira vez ele falou com a boca: “isso é impossível”.
Meu próprio choro e desepero já eram iguais aos dela. Pedi então que me permitisse tirá-la de lá e trazê-la para o acampamento.
Ele disse: “isso também é impossível. Ela terá de sair sozinha e encontrar um novo lugar para morar”.
Fui tomada de tristeza e raiva e passei o resto do dia ali no acampamento vazio sem saber como agir. Quando a noite chegou o velho não me trouxe o chá nem a comida.
Entrei para uma noite cheia de pesadelos e acordei no outro dia ainda mais cansada, com olhos inchados e a roupa suja.
Com dores no corpo, quente de raiva e mole de tristeza, resolvi continuar a obedecê-lo voltando a minha casa.
Depois de muitas voltas, tive coragem para verificar: não havia mais ninguém lá.
Aliviada por agora saber que minha mãe havia conseguido escapar, voltei forte às pancadas.
Contudo minha força não vinha mais do deslumbramento, mas agora só do velho.
A rotina voltou e ele parecia estar feliz comigo sendo essa sua aprovação suficiente para que eu não pensasse para onde minha mãe tinha ido.
Não queria abandonar o trabalho para voltar a minha outra vida que eu ja nem lembrava direito qual era e onde acontecia.
Contudo, o constante reerguimento de algumas paredes me trazia angústia.
Assim, um dia, me sentei ali nessa “desobra” para descansar e me recuperar desse desânimo. Deitei o olhar sobre os escombros e comecei a divisar entre as pedras e tijolos quebrados, algumas páginas arrancadas de um livro, pedaços de um cobertor com a estampa do pato donald, um sapato de criança, uma boneca sem cabelos, alguns carrinhos de plástico, panelas sem cabo, pincéis, dedos humanos, dentes, tufos de cabelo, mais ossos, facas, teclados de computador, um cachorro morto … saí correndo.
O velho, como era de se esperar, me esperava.
Me entregou uma pá e um carrinho de mão, apontando para um rio onde eu deveria jogar os escombros. Engoli seco e voltei. Com lágrimas e muitas paradas para vomitar, enchi o carrinho e levei até o rio. Esse era tão belo, azul transparente e cheio de caracóis, que me detive envergonhada por ter de jogar todos aqueles detritos la dentro. Primeiro joguei uma pedra, e ela se dissolveu. Joguei outra e ela se dissolveu. Joguei tudo e tudo se dissolveu.
Voltei mais cedo para o acampamento com um sentimento de alegria também único e novo. Procurei o velho e o encontrei no rancho de preparo do chá. O interrompi, colocando-me na sua frente e agradeci dizendo que finalmente havia entendido o que era a casa e o que eu estava fazendo. Terminei declarando que me sentia pronta para viver naquela tenda para o resto da minha vida.
O velho, que só agora pude ver, era mais jovem que eu, chamou um assitente. Perguntou com os olhos no céu se ele tinha um palpite de como iria ser o tempo nos próximos dias. Se iria chover. O assitente respondeu que não, o tempo iria continuar ameno. O velho então disse, tire a barraca dela mas deixe o colchão …